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quarta-feira, 29 de abril de 2009

CÁLICE, de Miltom Nascimento e Gilberto Gil

Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga?
Tragar a dor engolir a labuta?
Mesma calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira tanta força bruta

Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo disel
Me embriagar até que alguém me esqueça

ESCOLA, DOCENTES E ALUNOS

O mundo está mudando, a instituição escolar se manteve rígida em sua organização. Os docentes e os alunos mudaram; pois é conduta dos seres humanos assimilarem as mudanças sociais. Professores e alunos são obrigados a forçarem suas personalidades dentro da escola obedecendo a um sistema quase ultrapassado, que só com uma mudança nesta mordaça pedagógica poderá ser construído uma melhor relação entre docentes e alunos, visando uma melhor aprendizagem com satisfação.
A cada ano que passa é diminuída a valorização do professor pelo seu conhecimento, também a escola é pouco respeitada como uma segunda casa. Mas é óbvio, se a família não pode se manter como formadora de cidadãos, menos ainda pode se esperar da escola. O próprio ambiente físico das escolas não oferece um ambiente apropriado para o processo de ensino-aprendisagem e que a cada ano que passa aumenta a quantidade de alunos, tornando menores os espaços oferecidos. Também os diplomas que seguem dano aos docentes deixam a desejar em relação ao conhecimento específico e suas habilidades. “Que situação chegou o docente diante sua tamanha atribuição e competência”, a cumprir como bonzinho a função de assistência e contenção ante a quase dissolução da família. Assim chegamos a uma situação muito confusa sobre qual é o perfil e a função do docente hoje em dia. A docência e a educação estão em crise. Diante desta crise que se apresenta, ignorar e seguir em frente com a rotina escolar superficial, pode ser uma contribuição e continuidade para o que está acontecendo.
Será que é correto encher as escolas de alunos? É possível ensinar e aprender diante de uma sala com 40 alunos, pode o professor, nessas condições atender tal diversidade de alunos e corrigir os erros como forma de ensinar? Porque segue mantendo o horário como o centro da organização escolar? Porque os alunos devem suportar determinados professores impostos pela direção? Porque os professores devem lidar com alunos que não querem e não tem os elementos suficientes para a boa aprendizagem?
A violência e a educação institucional é um desafio entre a razão crítica e a busca de sentido para oferecer propostas concretas.
A violência como um problema macro social, parece não se encontrar meios para a solução. A violência psicológica e moral que exige da educação, principalmente a média, acrescenta um desprestígio conceitual, colocando a escola e seus docentes em situação de indefinição e debilita sua missão de poderem exercer, como mediadores e conselheiros, para conter todas as formas de violências como maior exclusão social. Temos como violência simbólica a comunicação social em um tempo que se ler pouco, se escuta mal e se ver muito, principalmente a miséria, violência e paixão humana, mostrada pela televisão. Analisando as preocupações e competências dos nossos dirigentes, que decidem tudo neste pais, vemos que o setor que mais é penalizado é o educacional, o resultado é traumático para alunos e professores.

Alguns comparativos entre a escola e os meios de comunicações, como jornais e televisão.
A escola deve ensinar: A moral pessoal e social, o sentido da família e a autoridade dos pais, o desenvolvimento harmonioso da natureza humana, preservar a cultura e seus valores, evitarem a violência.
A televisão: Leva a sociedade a entender que o que importa são valores materiais, incentiva ao consumismo, desprestigia o sentido de família e responsabilidade para com as autoridades, sensacionalismo com as desgraças e calamidades, facilita a cultura da morte, excita a sexualidade precoce. Etc.
A população educacional do ensino médio fica no centro da crise, configurada na violência escolar, danificada pela violência familiar, pressionada pela violência socioeconômica.
Não basta esperar que as coisas mudem, se faz necessário, mudança de atitudes dos grupos dominantes, revisarem os conceitos docentes e capacitá-los para as problemáticas dos alunos.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O DIVÃ

“História de uma pessoa que sai de casa, muitos anos depois procura um psicanalista e na cadeira de trabalho (divã), expõe as recordações constantes em sua vida”

Relembro a casa com varanda
Muitas flores na janela
Minha mãe lá dentro dela
Me dizia num sorriso
Mas na lágrima um aviso
Pra que eu tivesse cuidado
Na partida pro futuro
Eu ainda era puro
Mas num beijo disse adeus.

Minha casa era modesta, mas
eu estava seguro
Não tinha medo de nada
Não tinha medo de escuro
Não temia trovoada
Meus irmãos a minha volta
E meu pai sempre de volta
Trazia o suor no rosto
Nenhum dinheiro no bolso
Mas trazia esperança.

Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Por isso eu venho aqui.

Relembro bem a festa, o apito
E na multidão um grito
O sangue no linho branco
A paz de quem carregava
Em seus braços quem chorava
E no céu ainda olhava
E encontrava esperança
De um dia tão distante
Pelo menos por instantes
encontrar a paz sonhada.

Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Por isso eu venho aqui.

Eu venho aqui me deito e falo
Pra você que só escuta
Não entende a minha luta
Afinal, de que me queixo
São problemas superados
Mas o meu passado vive
Em tudo que eu faço agora
Ele está no meu presente
Mas eu apenas desabafo
Confusões da minha mente.

Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam.

sábado, 18 de abril de 2009

O Acre era de quem? por Eduardo Carneiro

Nunca houve, talvez, uma geografia tão confusa, hesitante, cheia de erros e de reticências do que a do ocidente do rio Madeira, durante os tempos coloniais”. (Leandro Tocantins, 2001, 387p. )
Eduardo Carneiro * A pergunta que traz o título desse artigo parece ter uma resposta óbvia para nós acreanos: o Acre pertencia ao Brasil. Os mais ufanistas acrescentariam “foi preciso que o sangue de nossos antepassados, heróis revolucionários, fosse derramado para que o Acre se desligasse da usurpadora Bolívia”. Mas pelo que sabemos, o Peru também reivindicava o Acre. Qual dos três países estava com a razão?

O BRASIL? Juridicamente todos os Tratados Internacionais, até então, davam uma resposta negativa a essa pergunta. A Bula Papal Intercoerente (1493) Tratado de Tordesilhas (1494), Tratado de Madri (1750), Tratado de Prado (1761), Tratado de Santo Ildefonso (1777) e o Tratado de Badajós (1801). O próprio Brasil Imperial reconhecia que o Acre pertencia à Bolívia através do Tratado de Ayacucho (1867) e por inúmeras vezes o Brasil Republicano confirmara o prescrito de 1967. Por que o Brasil teve que pagar à Bolívia (Tratado de Petrópolis, 1903) uma terra que lhe pertenceria?

O PERU? Como sabemos, a Bolívia fazia parte do Peru, um dos quatro vice-reinados da Espanha aqui na América. A Bolívia somente conquistou sua independência em 1825, no entanto, não houve consenso em relação aos limites fronteiriços com o Peru. O Peru alegava que todo o vale do Amazonas, a leste do meridiano do nascente do Javari, lhe pertencia. Quando houve a “revolução” acreana, essa questão ainda estava latente. Nesse ponto de vista, o Brasil teria de negociar o Acre com o Peru e não com a Bolívia. De fato, bastaram alguns meses para que o Barão de Rio Branco resolvesse a questão acreana com a Bolívia. Com o Peru, ao contrário, a pendenga durou seis longos anos.

A BOLÍVIA? A Bolívia considerava o Acre como “Tierras non descobiertas”, ou seja, terras ainda não exploradas pelos bolivianos. A atenção econômica desse país estava voltada para a extração de ouro e prata, negócio seguro e certo. Além do mais, a Bolívia vinha de uma guerra contra o Chile de 4 anos (1879-1882), portanto, teve que deslocar recursos humanos em direção oposta ao Acre. Aproveitando-se do patrocínio internacional e da crescente valorização do preço da borracha, milhares de nordestinos ocuparam as terras, criando o que se chamou de “Questão do Acre”. A Bolívia, mesmo sem ter ocupado a terra, alegava que o Acre lhe pertencia baseando-se nos mesmos Tratados Internacionais que o Peru, exceto o de Ayacucho.

De quem era o Acre, afinal? Ora, segundo a retórica aceita do UTI POSSIDETIS, o Acre pertenceria não aos seus descobridores, e sim aos seus ocupantes. Então o Acre inegavelmente pertencia aos primeiros ocupantes, certo? Sim, está correto. Ora, então o Acre pertencia inegavelmente aos brasileiros, certo? Não, errado. Os brasileiros foram um dos primeiros assassinos brancos na região e não os seus primeiros ocupantes. Os primeiros ocupantes foram os índios.

Até a segunda metade do século XIX, viviam no Acre cerca de 150 mil índios, distribuídos em 50 povos. Eram índios brasileiros ou bolivianos? Eram futuras vítimas do homem branco, brasileiros por mera coincidência, e isso nos basta. As “correrias” foram à maneira mais humana dos “heróis acreanos” dizimarem os índios e reocuparem o “último oeste”. A ambição pelo lucro gumífero moveu todo o genocídio, é o que a historiografia oficial convenientemente chamou de patriotismo.

Atualmente vivem no Acre um pouco mais de 10 mil indígenas. No último dia 19 de abril, dia em que o branco concedeu ao índio para vãs “comemorações”, políticos que se autoproclamam continuadores do espírito revolucionário dos primeiros acreanos, disputaram “microfones” para convencer os próprios brancos, que os índios no Acre têm “VALOR”.
Pode o índio ter valor sob a tutela do branco? Pode o índio ter valor nas mãos de quem se diz representar os seus algozes? Mas vivemos “novos tempos”. Tempos em que a Floresta vira nome de governo, índios viram autoridades, etnias ganham Secretaria. Oh, que engodo! Já diria Foucault em A Ordem do Discurso, que a instituição “lhe prepara um lugar que o honro, mas o desarma”. O Acre pertencia aos índios, mas esse debate pouco importa numa terra feita de “heróis”.
* Eduardo Carneiro é acadêmico do Mestrado em Letras na Ufac

quinta-feira, 9 de abril de 2009

DESEMPREGO

O Brasil vive uma grave crise estrutural por causa do modelo macroeconômico adotado pelo governo, refletindo em um alto índice de desemprego, esta situação leva a marginalização porque o subempregado procurará sobreviver na ilegalidade. Se não houver uma mudança na política econômica, o Brasil entra no caminho onde a violência só aumenta. A maioria do povo brasileiro ainda não percebeu que todos os impostos estão embutidos nos preços que pagamos. Muitas pessoas pensam que são os ricos, as indústrias e o comércio que sustentam a nação. Mas, já é tempo de acordarmos e compreendermos que não é bem assim. Mesmo sem perceber, somos nós, os simples cidadãos que sustentamos a nação com mais da metade dos nossos rendimentos. Uma quantia exagerada que poderia ser utilizada na fomentação da economia e na geração de emprego. “O desemprego estrutural faz parte hoje da lógica mundial da produção" Sustentar programas de auxilio-desemprego, os quais permitem apenas a subsistência, têm um custo muito alto, e ainda não é a solução. “O resultado é o agravamento da crise social e o surgimento de população excluída da produção e do consumo, e que conseqüentemente encontra-se fora de qualquer categoria de cidadania e da possibilidade de acesso à saúde, à educação e à habitação”. A situação lembra um enorme ferro-velho, onde o lixo permanece como símbolo do que na verdade não tem como ser jogado fora definitivamente. Esta situação desdobra-se em "tensões sociais a serem controladas por meios repressivos por parte das polícias", em uma crescente "degradação social na cidade e no campo”. Assistimos a um alastramento da criminalidade no seio do espaço coletivo, o que, por sua vez, incrementa o esconder-se narcísico. Na medida em que o Estado Moderno abre mão de qualquer função de negociador social, de promotor de diálogo das diferenças; a sociedade caminha para um processo de duelização, onde a lei e os políticos caem em descrença, não se constituindo mais em referência maior. As erosões sistemáticas das instituições públicas e dos poderes fazem, com que tome corpo a idéia do "cada-um-por-si", onde obviamente vence o mais forte, o mais esperto, o mais rico, etc. É a lógica da exterminação do outro, do menor, do mais pobre e do mais frágil que atua respaldado na lógica do descartável. O produto a se descartar é um enorme e crescente contingente de seres humanos. Estes são empurrados para algum tipo de agrupamento que os identifique na exclusão. Este cenário de guerra também encontra nas relações de trabalho e leva a uma corrosão do caráter das relações, devido à competição acirrada entre os trabalhadores para se manterem no mercado de trabalho. O que antes podia ser vivido como um ambiente de colegas de trabalho apresenta-se agora como um ambiente de intrigas, ataques desleais e traições pessoais. E como se não bastasse, surge uma nova sintomatologia ligada ao que se convencionou chamar de estresse. O estresse na verdade nada mais é do que o nível de tensão, ansiedade, insegurança e angústia imposta aos trabalhadores no cenário contemporâneo.

“Anuncia o governo estar o desemprego na faixa dos 17%. A pergunta continua: 17% de quê? Dos 180 milhões de brasileiros? Da população em condições de trabalhar? Dos que procuram emprego ou dos que recebem o salário-desemprego? Entram aí camelôs e os que se encontram na informalidade?”
artigo elaborado em junho de 2007 - crise hoje

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